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Entrevista com Nobel de economia: Viver mais custa caro

O prêmio Nobel americano diz que o setor de saúde será um dos motores da economia no século XXI – e que a alta de preços reverterá em ganhos para os mais pobres

Aos 84 anos, o americano Robert Fogel figura no rol dos mais renomados e prolíficos economistas em atividade. Laureado com um Prêmio Nobel em 1993, diretor do Centro de Economia Populacional da Universidade de Chicago, onde dá aulas. Fogel notabilizou-se pela objetividade com que se debruça sobre montanhas de dados para decifrar questões surgidas do crescimento econômico tanto de países desenvolvidos como de nações emergentes, entre as quais a China, principalmente. No estudo que lhe valeu o Nobel, o economista conseguiu estimar o peso do advento das ferrovias para o avanço do produto interno bruto (PIB) americano em 1890. Fogel atualmente vem se dedicando a analisar o setor de saúde, que vê como uma das molas propulsoras do capitalismo moderno. Em meio às discussões sobre a reforma proposta pelo presidente Barack Obama, que pretende universalizar o sistema médico americano ao estilo europeu, ele desafia o senso comum ao afirmar, com base em suas pesquisas, que para os cidadãos menos abastados a melhor saída é que os abonados gastem mais. “Os bons hospitais construídos para os ricos acabam beneficiando também os mais pobres por meio dos planos de saúde”, resume Fogel, na seguinte entrevista que concedeu a VEJA.

O senhor acredita que os gastos médicos das pessoas tendem a aumentar? Eles já estão aumentando. Fiz projeções para os Estados Unidos e para países da Europa que mostram que, pelo menos até 2040, o acesso à saúde vai encarecer, ano após ano. Isso porque, a princípio, a maior parte das novas tecnologias se traduzirá em instalações e equipamentos também mais dispendiosos. Veja o que ocorreu com o diagnóstico por imagens. Em pouco tempo, passamos de um simples raio X a imagens incrivelmente precisas. Tudo muito caro, mas também maravilhoso do ponto de vista dos benefícios. É um equívoco achar que as pessoas devem gastar menos com saúde. Precisamos desmistificar essa ideia. Trata-se de um investimento que lhes traz cada vez mais retorno. À medida que a tecnologia evolui, a tendência é que os cidadãos obtenham resultados também mais eficazes. Em suma, as pessoas estão pagando para viver mais tempo e com mais qualidade.

E como os mais pobres poderão se beneficiar dos avanços na saúde? Infelizmente, nunca haverá igualdade absoluta entre ricos e pobres nesse campo. Nos países mais avançados, a grande diferença no acesso à saúde não está tanto na qualidade do tratamento, mas na conveniência. Sempre que puder, o cidadão pagará para que o médico o espere, e não o inverso. Ainda assim, há uma correlação interessante entre as vantagens que os dois estratos sociais podem obter quando o sistema de saúde evolui.

Como isso ocorre? Uma comissão da Organização Mundial de Saúde (OMS) da qual participei concluiu que, em diversos lugares, a única forma de prover acesso à saúde aos mais pobres é construindo hospitais para os muito ricos. Mesmo que a população que habita o topo da pirâmide de renda não precise deles, porque tem dinheiro para voar até um país vizinho e se tratar, se essas instalações estiverem disponíveis, poderão em algum momento atender também os menos abastados, por meio dos planos de saúde. Por isso, por mais paradoxal que pareça, apoiar a criação de hospitais privados no mundo em desenvolvimento é a melhor maneira de conseguir tratamento para os mais pobres.

O setor de saúde será o grande propulsor da economia do século XXI? Não tenho dúvida. Está claro que a demanda por serviços na área de saúde seguirá em trajetória ascendente, seja nos países desenvolvidos, seja nas nações emergentes. Primeiro, por uma questão demográfica. Pelos meus cálculos, graças à evolução tecnológica e à maior disponibilidade de água e comida, a geração nascida nos anos 1980 alcançará, em países mais ricos, uma expectativa de vida de 100 anos. A cadeia produtiva nessa área é das mais extensas. Com os estímulos adequados, calculo que o impacto da saúde no produto interno bruto (PIB) americano poderá chegar a algo como 2,5% a 3% ao ano. Isso representa um enorme impulso para a economia. Se considerados os valores de hoje, esse porcentual significa adicionar anualmente à riqueza americana algo como 438 bilhões de dólares. Estamos falando de uma quantia equivalente ao PIB da Suécia.

Os setores que mais avançaram nos séculos XIX e XX se originaram de monopólios estatais. Qual será o maior vetor de crescimento para a saúde – estatal ou privado?Certamente privado. Nos Estados Unidos, a maior parte do investimento na área é patrocinada pelos próprios empregadores. Todas as empresas têm registrado aumento em seus gastos com saúde, a ponto de eles se tornarem cada vez mais parte relevante do pacote de benefícios dos funcionários. Tais gastos já representam mais de 20% da remuneração média oferecida pelo setor privado americano. Vejo, no entanto, como um claro papel do estado custear a saúde dos mais velhos e dos mais pobres, gente que não é capaz de arcar com um plano de saúde. Acho que a reforma proposta pelo presidente Barack Obama tem sido mal conduzida. Ela visa a cortar custos, mas, antes de fazer isso, o governo teria de verificar se o sistema está caro porque é ruim ou simplesmente porque as pessoas começaram a gastar mais. Para mim, essa última hipótese parece ser a mais plausível – e incontornável.

(…)

Fonte: Revista Veja – Edição 2211

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